Pelos caminhos da fé

Unidos pela fé, independentemente da religião professada, mais de duas centenas de peregrinos ultrapassaram centenas de quilómetros, debaixo de muita chuva e frio, em esforçada peregrinação aproveitando o fim de semana alargado pelo 1.º de maio, rumo a Castelo de Vide. 

@ 5-5-2015 09:55:51

Santuário de mototurismo que a todos acolheu de forma calorosa e plena de sol, sem olhar a credos ou à experiência de cada um, aos quilómetros percorridos ou às motos utilizadas, para um fim de semana inolvidável repleto de belíssimas paisagens, de inigualável património, de recheada gastronomia e pleno de diversão e camaradagem. Peregrinação organizada pelo Moto Clube do Porto, com imprescindível apoio da Antero, concessionário BMW nos Carvalhos, e da autarquia local, que, depois de dar a descobrir os Caminhos do Contrabando, em 2014, insistiu no regresso à belíssima “Sintra do Alentejo” para novo À Descoberta.



Desta feita centrado na fé, procurando vestígios d’As Três Religiões que, ao longo dos séculos, marcaram a história da região raiana. Judaísmo, Cristianismo e Islamismo que deixaram rasto indelével na arquitetura como na toponímia, nas artes como na gastronomia, servindo de palco para riquíssima aventura mototurística. Paraíso que fez esquecer o purgatório de peregrinos que, movidos por uma fé muito particular, de inabalável crença mototurística, aguentaram a provação da chuva enviada pelo S. Pedro, a mesma inclemência que tanto ampliou o sacrifício dos milhares de peregrinos de outra fé que, a caminho de Fátima, partilharam parte da estrada.


Petiscos e danças no re-encontro

Mas valeu a pena toda a abnegação dos que, desde os quatro Pontos de Partida Simbólicos (Porto, Conímbriga, Évora e Constância) demandaram Castelo de Vide, brindados logo à chegada, com animada Ronda das Tascas, amenizando o esforço da caminhada com petiscos saboreados ao ritmo das conversas de re-encontro. Abraços de saudação brindados com um tinto alentejano, olhando um céu que – oh, graça divina! – estava já tingido de um azul radiante. Afinal, a mesma fé que move montanhas afastou as nuvens para longe, aclarando os caminhos do Parque Natural da Serra de S. Mamede que haveriam de levar a procissão até à Barragem de Póvoa e Meadas. Espaço remodelado que servirá de palco de beleza privilegiada da 20.ª edição do Andanças, festival internacional de danças populares agendado de 3 a 9 de agosto, e onde a comitiva foi brindada com espetáculo etnográfico pelo Rancho Folclórico de Castelo de Vide.


Surpresa para as equipas de Religiosos, os participantes que em dia de passeata curta por espetaculares estradinhas entre montados, com sinuosidade à medida do enorme bucolismo, foram sempre bem encaminhados com ajuda dos Agnósticos elementos da organização, garantindo que a caravana seguia agrupada sem perder o rumo. Passeio que ajudou a ganhar apetite para jantar de boas-vindas em palco digno de reis e rainhas, príncipes e princesas, no Salão Nobre do Castelo de Castelo de Vide.


Desfrutar pela província de Cáceres

Numa época em que a tolerância é palavra-chave na convivência entre povos, a noite serviu para grande convívio entre todos, antecipando grande jornada mototurística que, ao longo de 300 quilómetros, mostrou não só as influências das três religiões nascidas no Médio Oriente e que, por estranho que possa parecer, têm mais pontos em comum do que muitos supunham, mas também paisagens de beleza ímpar. E não foi preciso andar muito para encontrar os primeiros pontos de interesse, passando os freixos pintados de branco na estrada N246-1, as famosas “árvores de fraldas”, rumo à Portagem do Marvão, por onde entraram, no ano de 1492, milhares de judeus expulsos de Espanha pelos Reis Católicos, através do Édito de Granada. Local por onde terão passado entre os 15 000 e os 400 mil judeus! (os números variam consoante as fontes e os historiadores) em acontecimento bem explicado através de animado quadro criado pelos elementos do Moto Clube do Porto, no primeiro dos seis controlos desta epopeia de descoberta.

Do museu Vostell de todas as surpresas...

Aventura que levaria a caravana a Valencia de Alcantara, atravessando as ruas de intensa candura do Barrio Judio-Gótico, apreciando as 266 portas ogivais e de outros estilos, antes da passagem pela igreja católica de S. Ildefonso, imponente obra arquitetónica do Séc. XVIII, seguindo por entre azinhais e sempre acompanhados por inúmeras aves de rapina, rumo ao surpreendente Museu Vostell, em Malpartida. Local que foi outrora um lavadouro de lãs de ovelha, transformado por Wolf Vostell, um alemão judeu fugido da perseguição nazi, que aqui encontrou refúgio e palco para obra de extraordinário simbolismo. Tempo ainda para reconfortar o estômago, antes da partida para Cáceres, onde a caravana teve o privilégio de rolar dentro da Ciudad Monumental, cada vez mais limitada ao trânsito, acompanhada pela polícia local e pelos elementos do Moto Clube Buitres Leonaos. Momento espetacular foi o estacionamento das 140 motos na Plaza Mayor para espanto dos transeuntes e da própria polícia, tal a rapidez e eficácia com que foi efetuado.

... às pinturas rupestres de Hortas de Baixo

Tempo para descobrir uma das mais bem conservadas cidades monumentais em todo o Mundo, criada pelos romanos ainda antes do nascimento de Cristo e que foi habitada por visigodos e muçulmanos antes da chegada dos cristãos, em 1229. Presenças visíveis na caminhada até ao Palácio de Las Veletas e ao Aljibe, antiga cisterna muçulmana que garantia abastecimento de água à cidade, em paragem que aproveitada para reconfortante almoço volante, antes da viagem até ao castelo de Albuquerque e regresso a Portugal para descobrir história bem mais antiga.

Com data que se perde nas profundezas do tempo, mas seguramente com muitos milhares de anos de existência, o homem pré-histórico deixou símbolos marcados em Hortas de Baixo, espaço arqueológico em Arronches onde as interessantes pinturas rupestres serviram de motivo para mais um quadro alegórico do homem (e da mulher...) das cavernas e, não menos importante, outro animado petisco.


Final medieval, pela última vez

E com o sol a pôr-se, em aproximação do final de um espetacular dia de mototurismo, regresso a Castelo de Vide, com um olhar sobre Alegrete e Marvão, antes da subida à Senhora da Penha, de onde se tem vista privilegiada sobre a “Sintra do Alentejo” e do seu castelo. Onde o jantar final terminaria em animada festa, marcando também a história do Salão Nobre do castelo, já que foi a última vez que serviu de sala a uma refeição antes da transformação em espaço museológico.

A sobremesa incluiu sorteio de excelentes prémios oferecidos pelo concessionário Antero, culminado com rasgados elogios de todos os participantes ao evento que encerraria no dia seguinte. E onde nem a chuva e o nevoeiro que roubaram parte da espetacularidade, nomeadamente na visita à sempre bela vila do Marvão, e ditaram algumas alterações ao trajeto arrefeceram enorme entusiasmo em caravana de 210 participantes. Que já esperam pela À Descoberta de 2016, com esperança de que S. Pedro ande menos distraído com o calendário e não estenda a validade do ditado popular que reza que “Em abril águas mil” até ao mês de maio...

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